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no acto da leitura, provavelmente, a avaliar pela expressão dolorida do rosto, no
momento em que ele dissera que estava a falar com o coração nas mãos. Poucos
eram os que perdiam tempo a ler o que já sabiam, a quase todos o que acima de
tudo interessava era informar-se do que pensavam os directores dos jornais, os
editorialistas, os comentadores, alguma entrevista de última hora. Os títulos de
abertura atraíam a atenção dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros, nas
páginas interiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabeça
de um mesmo génio da síntese titulativa, aquela que permite dispensar sem
remorso a leitura da notícia que vem a seguir. Havia-os sentimentais como A
Capital Amanheceu Órfã, irónicos como A Castanha Rebentou na Boca dos
Provocadores ou O Voto Branco Saiu-lhes Preto, pedagógicos como O Estado Dá
Uma Lição À Capital Insurrecta, vingativos como Chegou A Hora Do Ajuste de
Contas, proféticos como Tudo Será Diferente A Partir De Agora ou A Partir De
Agora Nada Será Igual, alarmistas como A Anarquia À Espreita ou Movimentações
Suspeitas Na Fronteira, retóricos como Um Discurso Histórico Para Um Momento
Histórico, bajuladores como A Dignidade Do Presidente Desafia A
Irresponsabilidade Da Capital, bélicos como O Exército Cerca A Cidade, objectivos
como A Retirada Dos Órgãos De Poder Fez-se Sem Incidentes, radicais como A
Câmara Municipal Deve Assumir Toda A Autoridade, tácticos como A Solução
Está Na Tradição Municipalista. Referências à estrela maravilhosa, a dos vinte e
sete braços de luz, foram poucas e mesmo essas metidas a trouxe-mouxe no
meio das notícias, sem a graça atractiva de um título, ainda que fosse irónico,
ainda que fosse sarcástico, do género E Ainda Se Queixam De Que A
Electricidade Está Cara. Alguns dos editoriais, se bem que aprovando a atitude do
governo, Nunca as mãos lhes doam, exortava um deles, atreviam-se a expressar
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certas dúvidas sobre a alegada razoabilidade da proibição de sair da cidade
imposta aos habitantes, É que, uma vez mais, para não variar, vão pagar os justos
pelos pecadores, os honestos pelos malfeitores, aí temos o caso de dignas
cidadãs e de dignos cidadãos que, tendo cumprido com requintado escrúpulo o
seu dever de eleitores votando em qualquer dos partidos legalmente constituídos
que ordenam o quadro de opções políticas e ideológicas em que a sociedade se
reconhece de modo consensual, vêem agora coarctada a sua liberdade de
movimentos por culpa de uma insólita maioria de perturbadores cuja única
característica há quem diga que é não saberem o que querem, mas que, em
nosso entender, o sabem muito bem e estão a preparar-se para o assalto final ao
poder. Outros editoriais iam mais longe, reclamavam a abolição pura e simples do
segredo de voto e propunham para o futuro, quando a situação se normalizasse,
como por jeito ou por força terá de suceder algum dia, a criação de uma caderneta
de eleitor, na qual o presidente da assembleia de voto, após conferir, antes de o
introduzir na uma, o voto expresso, anotaria, para todos os efeitos legais, tanto os
oficiais como os particulares, que o portador havia votado no partido tal ou tal, E
por ser verdade e tê-lo comprovado, sob palavra de honra o assino. Se tal
caderneta já existisse, se um legislador consciente da possibilidade do uso
libertino do voto tivesse ousado dar este passo, articulando o fundo e a forma de
um funcionamento democrático totalmente transparente, todas as pessoas que
haviam votado no partido da direita ou no partido do meio estariam agora a fazer
as malas para emigrar com destino à sua verdadeira pátria, essa que sempre tem
abertos os braços para receber aqueles a quem mais facilmente pode apertar.
Caravanas de automóveis e autocarros, de furgonetas e camiões de mudanças,
levando arvoradas as bandeiras dos partidos e buzinando a compasso, pê dê dê,
pê dê eme, não tardariam a seguir o exemplo do governo, a caminho dos postos
militares da fronteira,
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sentados os meninos e as meninas com o rabo de fora das janelas, a gritar aos
peões da insurreição, Vão pondo as barbas de molho, miseráveis traidores,
Esperem-lhe pela pancada quando voltarmos, bandidos de merda, Filhos da
grande puta que vos pariu, ou então, máximo insulto no vocabulário do jargão
democrático, berrando, Indocumentados, indocumentados, indocumentados, e isto
não seria verdade, porque todos aqueles contra quem gritavam também teriam em
casa ou levariam no bolso a sua própria caderneta de eleitor, onde,
ignominiosamente, como marcado a ferros, estaria escrito e carimbado Votou em
branco. Só os grandes remédios são capazes de curar os grandes males, concluía
seraficamente o editorialista.
A festa não durou muito. É certo que ninguém se decidiu a ir para o trabalho, mas
a consciência da gravidade da situação não tardou a fazer baixar o tom às
manifestações de alegria, havia mesmo quem se perguntasse, Alegres, porquê, se
nos isolaram aqui como se fôssemos pestíferos em quarentena, com um exército
de armas aperradas, prontas a disparar contra quem pretenda sair da cidade,
façam-me o favor de dizer onde estão as razões para alegrias. E outros diziam,
Temos de organizar-nos, mas não sabiam como se fazia isso, nem com quem,
nem para quê. Alguns sugeriam que fosse um grupo falar com o presidente da
câmara municipal, oferecer leal colaboração, explicar que as intenções das
pessoas que haviam votado em branco não eram deitar abaixo o sistema e tomar
o poder, que aliás não saberiam que fazer depois com ele, que se haviam votado
como votaram era porque estavam desiludidos e não encontravam outra maneira
de que se percebesse de uma vez até onde a desilusão chegava, que poderiam
ter feito uma revolução, mas com certeza iria morrer muita gente, e isso não
queriam, que durante toda a vida, pacientemente, tinham ido levar os seus votos
às urnas e os resultados estavam à vista, Isto não é democracia nem é nada,
senhor presidente
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da câmara. Houve quem fosse de opinião que deveriam ponderar melhor os
factos, que seria preferível deixar à câmara municipal a responsabilidade de dizer
a primeira palavra, se aparecemos lá com todas essas explicações e todas essas
ideias vão pensar que há uma organização política detrás de tudo isto a mexer os [ Pobierz caÅ‚ość w formacie PDF ]

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